O contrato didático é o conjunto de expectativas, regras e responsabilidades que organiza a relação entre professor, alunos e conhecimento. Quando parte dele fica apenas implícita, a turma pode interpretar de formas diferentes o que significa participar, pedir ajuda, revisar uma resposta ou demonstrar aprendizagem. Por isso, transformar algumas expectativas em combinados claros ajuda a reduzir ruídos e a criar melhores condições para a aula.
Isso não significa elaborar um cartaz de proibições nem transferir para os estudantes a responsabilidade pela gestão da sala. O professor continua responsável pelo planejamento, pela mediação e pelas decisões pedagógicas. A proposta é tornar visível como a turma vai trabalhar, ouvir, colaborar e avaliar o próprio percurso, com espaço para revisar os acordos quando a experiência mostrar que eles não funcionam.

O que significa contrato didático?
Na Didática da Matemática, a expressão foi desenvolvida para analisar as expectativas que orientam a relação entre professor, aluno e saber. Algumas regras são declaradas; outras aparecem quando alguém age de um modo que o grupo considera inesperado. A ideia é útil porque mostra que a aula não é organizada somente pelo conteúdo escrito no planejamento: ela também depende de sinais sobre quem pode falar, que tipo de resposta é valorizada, quando o erro pode ser discutido e que ajuda é legítima.
Em uma turma acostumada a copiar exemplos e esperar um procedimento único, por exemplo, uma atividade investigativa pode causar estranhamento. Os estudantes podem perguntar qual é a fórmula correta antes de analisar o problema. O professor pode, sem perceber, entregar a estratégia para acelerar a aula. Assim, o contrato anterior é reforçado, mesmo quando a intenção era desenvolver autonomia.
Usar o conceito na prática não exige transformar a sala em um laboratório de teoria. Significa observar as expectativas que estão guiando as ações e escolher quais precisam ser explicitadas para que o objetivo da aula seja possível.
Por que criar combinados ligados à aprendizagem?
Regras genéricas como “prestar atenção” ou “comportar-se bem” dizem pouco sobre o que o aluno deve fazer diante de uma tarefa. Um combinado didático é mais útil quando descreve uma ação observável e relacionada ao trabalho intelectual. Em vez de “não interromper”, a turma pode combinar: “anotamos a ideia do colega e esperamos a pausa para perguntar”. Em vez de “fazer tudo certo”, pode estabelecer: “registramos a tentativa e explicamos onde surgiu a dúvida”.
Esse tipo de acordo também pode favorecer a participação de estudantes que precisam de mais tempo para organizar a fala, que se comunicam melhor por escrito ou que ainda não se sentem seguros para expor um erro diante do grupo. A inclusão não acontece apenas ao adicionar uma regra; depende de oferecer diferentes formas de acesso, participação e demonstração do que foi aprendido.
A BNCC relaciona aprendizagem escolar a competências como diálogo, cooperação, empatia, responsabilidade e cidadania. Isso não transforma qualquer combinado em uma habilidade da Base, mas ajuda o professor a conectar a convivência ao propósito pedagógico, sem separar artificialmente “conteúdo” e “comportamento”.
Como construir o contrato didático com a turma
1. Comece pelo objetivo da sequência
Antes de perguntar quais regras a turma deseja, defina qual trabalho será realizado. Uma aula de debate, uma investigação de Ciências, uma oficina de escrita e uma prova exigem comportamentos diferentes. Pergunte: que ações dos alunos são necessárias para que o objetivo aconteça? Que intervenções do professor ajudam sem retirar deles a responsabilidade de pensar?
Se a meta é comparar fontes históricas, o acordo pode prever que toda afirmação importante venha acompanhada de uma evidência do texto ou da imagem analisada. Se a meta é produzir um texto, pode combinar que a primeira versão será lida para revisão antes da entrega. O acordo nasce do objetivo, não de uma lista pronta.
2. Transforme expectativas em ações observáveis
Registre de três a cinco frases curtas, começando por verbos. Alguns exemplos:
- Escutamos para compreender: fazemos perguntas sobre a ideia antes de avaliá-la.
- Mostramos o raciocínio: registramos tentativas, dados e mudanças de estratégia.
- Pedimos ajuda com uma pergunta: indicamos o que já tentamos e onde paramos.
- Revisamos com critérios: usamos a rubrica ou o checklist antes de entregar.
- Dividimos a participação: distribuímos funções e alternamos quem fala, registra e apresenta.
O professor também deve assumir compromissos. Pode combinar que explicará o objetivo e os critérios antes da atividade, dará tempo de espera depois de uma pergunta, oferecerá mais de uma forma de registro ou retomará uma dúvida comum sem expor o aluno que a apresentou. A relação fica mais equilibrada quando as responsabilidades não são cobradas apenas de um lado.
3. Discuta situações concretas
Depois de escrever os acordos, apresente pequenos cenários. “Um colega discorda da sua resposta. O que fazer?” “Você tentou duas estratégias e nenhuma funcionou. Como pedir ajuda?” “Durante o trabalho em grupo, uma pessoa faz tudo. Como reorganizar as funções?” A conversa revela ambiguidades que um cartaz não mostra.
Para turmas menores, o professor pode dramatizar uma situação e pedir que as crianças identifiquem o que ajudou ou atrapalhou. Para adolescentes, é possível comparar duas versões do mesmo combinado e discutir qual delas orienta melhor a ação. Em ambos os casos, o objetivo não é encontrar uma frase perfeita, mas construir uma referência que possa ser usada durante a tarefa.
4. Combine respostas para quando o acordo não for cumprido
Um combinado sem consequência previsível vira decoração; uma consequência humilhante transforma a regra em ameaça. Defina previamente como a turma vai reparar o problema. Se um grupo não registrou a contribuição de todos, pode reorganizar as funções e completar o registro. Se a discussão foi interrompida muitas vezes, a classe pode usar uma rodada de fala ou perguntas por escrito antes de retomar o debate.
Casos de violência, discriminação, assédio ou risco não devem ser tratados como simples quebra de combinado. Eles exigem os protocolos da escola, proteção dos estudantes e atuação dos responsáveis. Um contrato didático não substitui o regimento, o projeto pedagógico, a rede de proteção ou a avaliação profissional de situações complexas.
Como usar os combinados durante a aula
O acordo precisa aparecer no momento em que ajuda a decidir. No início da atividade, destaque apenas um ou dois critérios relevantes. Durante a circulação, faça perguntas como “qual combinado orienta essa decisão?” ou “que evidência mostra que o grupo está dividindo a participação?”. No fim, reserve dois minutos para uma autoavaliação rápida: qual acordo ajudou, qual ficou confuso e qual precisa ser ajustado?
Essa retomada conecta o combinado à avaliação formativa. O professor pode anotar padrões sem expor nomes: muitos alunos pedem a resposta pronta, poucos justificam a escolha ou os grupos distribuem funções apenas no papel. Essas evidências indicam uma necessidade de reensino. Às vezes, a turma não precisa de uma nova regra; precisa de modelagem, exemplo, tempo de prática ou critérios mais claros.
Uma roda de conversa pode ajudar na revisão do contrato, desde que tenha uma pergunta orientadora e um registro das decisões. O artigo do PRAL sobre como planejar uma roda de conversa em sala de aula pode servir de apoio para essa etapa. Para acompanhar as evidências, também é possível consultar o conteúdo sobre avaliação formativa e transformar observações em próximos passos.
Erros comuns ao criar um contrato didático
- Fazer uma lista extensa: muitos itens competem com o objetivo da aula. Comece com poucos acordos e acrescente somente o que for necessário.
- Confundir silêncio com aprendizagem: uma turma silenciosa pode estar pensando, mas também pode estar sem compreender a tarefa. Observe produções e perguntas.
- Tratar participação como falar muito: registrar, perguntar, escutar, revisar e apresentar também são formas de participação.
- Usar a votação como única decisão: direitos, segurança e inclusão não dependem de maioria. O professor deve estabelecer limites profissionais e institucionais.
- Manter o acordo congelado: a regra precisa ser revisada quando muda a etapa, a atividade, a composição da turma ou a necessidade de acessibilidade.
- Aplicar punição automática: antes de concluir que houve desinteresse, verifique se a instrução, o tempo, o material e o apoio estavam acessíveis.
Um roteiro de 20 minutos para começar
Escolha uma atividade próxima e escreva o objetivo no quadro. Em três minutos, peça que os alunos indiquem o que precisam fazer para aprender naquela situação. Em seguida, agrupe as respostas em três ou quatro ações observáveis e complete o que estiver faltando do ponto de vista pedagógico. Testem um cenário rápido, registrem as frases finais e definam quando irão revisá-las.
Ao terminar a aula, recolha uma resposta anônima para duas perguntas: “qual combinado ajudou você a aprender?” e “qual situação ainda ficou difícil?”. Use as respostas para planejar a próxima intervenção. O contrato didático não é um documento que controla a turma de uma vez; é uma ferramenta para tornar mais claras as relações entre participação, atividade, avaliação e conhecimento.
Fontes e leituras de apoio
A noção de contrato didático é apresentada no material Contrato Didático: uma introdução, disponibilizado pelo Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo, com base em Guy Brousseau. Para a relação entre convivência, participação e proteção, consulte as páginas do MEC sobre o programa Escola que Protege. A UNESCO também oferece o guia Positive discipline in the inclusive, learning-friendly classroom, que diferencia disciplina educativa de punição e discute regras construídas com estudantes.
Próximo passo: escolha uma atividade da próxima semana, escreva três ações que tornam a aprendizagem visível e convide a turma a revisar se esses acordos realmente ajudam a pensar, participar e melhorar.

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